Num bom lugar

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010 by anaju

Bocada - Forte ::: Reportagens

Num bom lugar : eles nos esperam por lá

Data: 17/01/2010

Hoje, 17 de janeiro, faz cinco anos que Bezerra da Silva se foi. O embaixador do morro partiu uma semana antes, mas dois anos depois que Sabotage - o maestro do Canão, que daqui há sete dias completa sete anos de partida. Nos deixou fisicamente aos 29 anos. Bezerra aos 77, viveu 48 a mais. Semelhantes na malandragem, os dois se foram pela manhã - Bezerra numa segunda feira, assim como declarava querer, já que como todo bom malandro não queria atrapalhar com velório o final de semana dos amigos, e Sabote, se é que me permite a intimidade, sob o sol de uma sexta feira, só que não de "morte morrida" como Bezerra e sim de "morte (covardemente) matada", à bala, "presa fácil virou...", talvez ele cantasse sobre seu próprio destino...

Num emaranhado de semelhanças e coincidências entre estas duas mentes brilhantes que vão bem além dos números que situam no calendário as datas de suas mortes, talvez tenha sido pelo ensinamento dos mesmos que naquela sexta feira, 24 de janeiro de 2003, não apareceu um dedo de seta que fosse na avenida Abraão de Morais, na zona sul de São Paulo pra testemunhar o assassinato de Sabotage. Não teve um caguete sequer pra dizer à polícia quem disparou quatro tiros contra ele naquela manhã. Ninguém tinha visto nada, ninguém sabia de nada. Pique "não quero comentar/ mas vi / e o que vi não quis", exatamente como cantava em "Respeito É Pra Quem Tem".

Mas desta vez a gente queria que comentassem, que apontassem, que quisessem, quem sabe só pra que pudesse cantar pro vacilão aquela do nosso outro finado malandro, o Silva: "Você com um revólver na mão é um bicho feroz / sem ele anda rebolando"...

Assim como Sabote, Bezerra morreu enquanto produzia um novo disco. As últimas imagens do embaixador do morro foram feitas num estúdio onde ele gravava uma música com senador Magno Malta - aquele da CPI da Pedofilia, com temática gospel. Sim, o mestre do partido alto àquela época havia se tornado evangélico. Visivelmente sem o fôlego mas ainda com seu timbre inconfundível, ele ensaiava:
"aquele que bebia já não bebe mais, aquele que fumava já não fuma mais, aquele que cheirava já não cheira mais, Jesus Cristo venceu satanás"... Como se encarnasse um rito de passagem da malandragem cada vez mais comum nos dias de hoje, Bezerra foi da macumba ao "agora sou crente" - declarado quatro anos antes de sua morte e três anos depois do lançamento do livro "Bezerra da Silva: Produto do Morro", de Letícia Viana.

Sabotage, ao contrário, reafirmava sua fé cantando pro santo e pedia à Oxalá pra que o preparasse pra fama. Em 2003 já havia ido longe, talvez bem mais do que aquilo que previa. Do Canão à televisão, ele chegou a dizer:
"podia morrer amanhã, a minha parte eu já fiz"... Quem sabe de lá de Aruanda, atentos aos seus pedidos, os Orixás vieram o buscar antes que o tão aguardado segundo disco saísse.

Nos deixou com o hino "Rap é compromisso", como se aquela letra fosse um contrato com seus parceiros na música, que teriam de assumir o compromisso de continuar seu legado já que ele não estaria entre nós por mais tanto tempo. E como se previsse, antes de partir saiu abocanhando prêmios, dando entrevistas pra rádios, revistas, jornais, atuando em filmes, compondo trilha sonora para o cinema, e mostrou novos rumos ao Rap, como bom artista de vanguarda, que puxa toda uma geração à uma nova maneira de pensar e fazer arte.

Daquele dia 24, sete anos depois ainda restou um cheiro de pólvora. "Vem ver, aquele cara do Rap morreu", minha mãe me chamava pra ver a notícia na tv. Acompanhada da indignação, que sempre vem quando um de nós é morto a tiros, me lembro de ter pensado: "porra, será que vão cancelar o show do Racionais?" Naquela noite, como escreveu o João Wainer em 2007 em seu blog que tem nome de Exu, o Tranca Rua, Mano Brown e sua trupe se apresentaram em Jundiaí, no clube 28 de Setembro - ícone da cultura negra na cidade e local que também aguardava a vinda de Mauro Mateus para um show no mês seguinte. Infelizmente o repórter engomadinho na tv nos dizia que ele não viria, não. Nem no mês seguinte, nem nunca mais.

Desde as nove da noite o clube estava lotado de mentes revoltadas e confusas com a morte anunciada naquele dia. Pairava um clima tenso no ar, de tragédia, como quando os barracos rolam morro abaixo com a chuva e a lama. Pouco se falava, mas havia uma cumplicidade entre todos ali, estávamos velando Sabotage naquele show, e à espera ansiosa da voz de comando de Brown, como se ele fosse a pessoa que pudesse nos autorizar à uma vingança contra o filho da puta que havia feito aquilo com o nosso Sabote durante a manhã daquela sexta feira.

Por volta das três da madrugada Mano Brown subiu ao palco, trazia uma bandeira com o nome de Sabotage. Ele pedia paz, pra ele, pra nós. E foi naquele momento que o nome do maestro foi citado pela primeira vez na música
"Jesus Chorou", ao lado de Malcom X, Che Guevara, Gandhi, Martin Luther King, Tupac e Bob Marley. Ali, Maurinho, na voz do líder do Racionais e apoiado por mais de 50 mil manos, poucas horas após sua morte, já havia se tornado herói.

Lembro de alguns chorando no salão nesta hora. Choro seguido de um silêncio cortante e desafiador enquanto Brown dizia que era hora de a gente parar de se matar... Cortante porque a perda de um ídolo nos machucava, ao mesmo tempo em que nos metia medo seguir o mesmo destino dele; e desafiador porque naquela altura do campeonato já era muito difícil que a gente parasse de se matar. O assassinato de um boa gente como Sabotage reafirmava o enredo dramático do curta metragem do favelado dos anos 2000 : matar e morrer. "Morrer é um fator, mas conforme for..." repetíamos em coro.
Numa sequência de coincidências infelizes, naquela mesma noite depois do show, contrariando tudo aquilo que Pedro Paulo havia nos pedido, rolou uma discussão na praça em frente ao clube e mais um mano, com uma camiseta que trazia estampado o rosto do maestro do Canão, morreu baleado.

E ninguém sabe, ninguém viu.

Dois anos mais tarde, na mesma quantidade de tempo em que se foi Bezerra, numa madrugada de um também 24 de janeiro, o corpo do servente de pedreiro Luiz Fernando Santana foi carregado até o palco do Racionais durante um show na cidade de Bauru. Santana morreu ali sob o olhar atônito de Brown, furado por balas de revólver, como Sabotage, ao som das primeiras estrofes de Jesus Chorou...

Coincidências, destino, a Roda da Fortuna, ou simplesmente cotidiano violento à la carte. Não se sabe. Mas ao menos se espera... mesmo que por aqui ainda se coma o que tem à mesa, só pra tirar a barriga da miséria, o povo quer trégua. Que nesta segunda parte do dois ponto zero, deste mundo bão de acabar, em que cada um se arma como pode - de canhão ou de rima, que a malandragem e a sabedoria de Silva e Santos esteja lá, confiada à nós, em um bom lugar.

"Se eu for falar de tanto sofrimento, meu tempo não dá, olhaí, ó ao meu redor"...


(a minha predileta)


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